Deal Pill #19 · Julho de 2026
Uber adquire Delivery Hero
- Data
- 16 de julho de 2026
- Setor
- Food Delivery
- Tipo
- Aquisição
- Valor
- US$ 14,8 bi
- Geografia
- EUA · Alemanha
Em 16 de julho de 2026, a Uber anunciou oferta pública de aquisição da Delivery Hero a €41,50 por ação, 127% acima do VWAP de 3 meses pré-rumores. A transação entrega à Uber operações em 50 novos mercados, US$ 42 bilhões em gross bookings e marcas como Glovo, talabat e Baemin. A aquisição só foi possível porque a Prosus foi forçada pela Comissão Europeia a vender seu bloco de controle, criando involuntariamente a janela de entrada perfeita para a Uber. E para o Brasil, onde a Uber saiu do delivery de restaurantes em 2022, o deal ressuscita uma questão que o iFood preferia não discutir.
Com informações do Pipeline.
O deal em números
US$ 236 bi
Volume combinado em 2025.
99 países
Presença da Uber pós-deal.
~0,35x
Múltiplo EV/GMV implícito.
~49%
Acima da oferta inicial (maio/26).
Sobre a Uber
Fundada em 2009, a Uber opera uma das maiores plataformas de mobilidade e delivery do mundo com US$ 52 bi em receita e US$ 10 bi de lucro líquido em 2025, com inclusão no S&P 500 em 2023.
US$ 160 bi
De market cap em 2025.
Sobre a Delivery Hero
Fundada em 2011 em Berlim, é uma multinacional alemã de delivery. Em +60 países (Europa, Ásia, África, América Latina e Oriente Médio), a empresa opera em parceria com centenas de milhares de restaurantes e comércios locais.
US$ 42 bi
Volume geral de vendas 2025.
A trajetória das empresas: Uber e Delivery Hero
- A Uber: Fundada em 2009, tem como serviços principais o transporte e logística por meio de aplicativos de maneira prática. A empresa cresceu de forma agressiva e controversa até os escândalos de 2017. Um novo diretor assumiu com mandato de reformar a cultura e preparar o IPO, resultando numa empresa mais disciplinada, mas um IPO decepcionante em 2019, a pior estreante americana desde 1975.
- A trajetória de M&A seguiu dois modelos: adquirir onde vale dominar (Postmates - US$ 2,65 bi, Careem - US$ 3,1 bi, Cornershop) e converter em equity onde o custo de competir é proibitivo (Didi (China), Grab (Sudeste Asiático), Zomato (Índia delivery)). Em 2023, a Uber reportou seu primeiro lucro operacional anual e entrou no S&P 500. Em 2025: US$ 52 bi em receita e US$ 10 bi de lucro líquido. A Delivery Hero é o maior deal do primeiro modelo.
- A Delivery Hero: Fundada em Berlim em 2011, a empresa cresceu radicalmente via aquisições de plataformas locais em dezenas de países, mantendo marcas regionais como talabat (MENA), Yemeksepeti (Turquia), Baedal Minjok (Coreia) e foodpanda (Ásia). Fez IPO na Bolsa de Frankfurt em 2017 (€4,4 bi de valuation), entrou no DAX em 2020, e adquiriu 83% da Glovo expandindo para quick commerce via dark stores.
- O problema foi, apesar de possuir uma escala impressionante, não obteve lucros significativos. Com prejuízo operacional de €1,66 bi em 2023. Em dezembro de 2024, a subsidiária talabat realizou o maior IPO de tecnologia global do ano na Bolsa de Dubai, mas o sinal mais revelador veio em março de 2026, quando o CEO fundador Niklas Östberg anunciou sua saída até março de 2027, com processo de venda da Woowa Brothers (Baemin) já em andamento via JPMorgan. A empresa buscou entrar em modo de desinvestimento ao invés de crescimento.
Análise da Merak sobre a transação
- À primeira vista, 127% sobre o Preço Médio Ponderado por Volume (VWAP) de 3 meses parece excessivo. Mas esse VWAP refletia uma empresa com prejuízos históricos, CEO em saída, sem parceiro estratégico evidente e sob pressão de fragmentação de ativos. O preço “sem perturbação” da Delivery Hero estava artificialmente deprimido por uma narrativa negativa acumulada. A Uber pagou pelo valor econômico real da rede, não pelo preço deprimido do papel. O múltiplo implícito de ~0,35x GMV é baixo para uma plataforma de delivery líder em mercados como Coreia do Sul, Oriente Médio e Europa, onde players comparáveis negociam a múltiplos superiores.
- O papel da Prosus: A Prosus era a maior acionista da Delivery Hero com ~26,5%. Quando a Comissão Europeia aprovou sua aquisição da Just Eat Takeaway, impôs como condição a redução dessa participação para menos de 10%. O processo de venda se desdobrou em etapas: primeiro um bloco de 4,5% à Uber a €20/ação, depois 5% à Aspex Management. A Uber aproveitou cada etapa para acumular posição, chegando ao anúncio final com 24,99% direto + 11,8% via instrumentos. A Prosus agora tende os ~16,8% remanescentes na oferta a €41,50, recebendo 107% a mais do que o preço ao qual foi forçada a vender inicialmente.
- Delivery no Brasil: A Uber saiu do delivery de restaurantes no Brasil em 2022, incapaz de competir com o iFood (80%+ de market share), controlado pela Prosus. Com a Uber emergindo como a maior plataforma global de delivery fora da China, a equação competitiva se altera; a Uber agora tem escala global, know-how de quick commerce via dark stores da Delivery Hero. O deal não muda o Brasil imediatamente, a alta capilaridade da Prosus dificulta a inserção da Uber no mercado, apesar de alterar o peso da empresa na mesa de qualquer negociação futura envolvendo o mercado brasileiro.
O que não fica óbvio no deal?
- A talabat realizou o maior IPO de tecnologia global de 2024 na Bolsa de Dubai, o que significa que há acionistas públicos do talabat que não são acionistas da Delivery Hero. A Uber adquire a participação majoritária da Delivery Hero no talabat, mas terá que administrar uma estrutura de governança complexa envolvendo fluxo de caixa e decisões estratégicas do talabat enquanto empresa parcialmente listada numa bolsa do Oriente Médio. Esse detalhe vai gerar deliberações legais e regulatórias relevantes.
- A previsão de fechamento no 2º semestre de 2027 significa 12-18 meses de incerteza. A Delivery Hero opera de forma independente, com CEO em transição, durante esse período. Concorrentes podem aproveitar para atrair talentos, restaurantes e usuários. Os 14 mercados da SSW Partners ficam num limbo estratégico. E os reguladores de múltiplos países (UE, Coreia, MENA, América Latina) têm espaço para exigir concessões adicionais além dos 14 mercados já proativamente desmembrados.
- A Woowa Brothers: A Delivery Hero adquiriu 87% da Woowa Brothers (Baemin, segundo maior app de delivery da Coreia do Sul) por US$ 4 bi em 2019, e buscava aproximadamente US$ 5,4 bi na venda. A Uber estava considerando uma divisão 70-30 com a Naver para adquirir a Woowa separadamente, ou seja, a Woowa pode ser vendida de forma independente do deal principal, a um consórcio ou terceiro, gerando caixa adicional para a Delivery Hero antes do fechamento. O destino desse ativo valioso ainda está em aberto.
Lições aprendidas com o deal
- Timing: A Uber não descobriu que a Delivery Hero valia US$ 14 bilhões quando fez a oferta, ela soube disso antes e esperou o momento em que a Prosus era forçada a vender. Posição de controle em ativo estratégico vendida sob coerção regulatória é vendida a preço de liquidação: a primeira tranche foi comprada a €20 por ação; a oferta final saiu a €41,50, 107% acima. A lição para M&A: é tão importante monitorar processos regulatórios que forçam desinvestimentos quanto monitorar os resultados financeiros de potenciais alvos.
- Delivery no Brasil: O iFood construiu uma fortaleza no Brasil, com exclusividade de restaurantes de alto volume, density economics impossível de replicar sem anos de subsídios, e controle da Prosus como escudo estratégico. A Uber tentou, queimou capital e saiu em 2022. O deal não muda isso diretamente, mas cria pressão competitiva de longo prazo que força uma decisão estratégica sobre o iFood nos próximos anos; parceria com a Uber, IPO, ou venda.
- Competitividade na China: A Uber investiu buscando liderança global de delivery fora da China, mas a Meituan (Keeta), com GMV estimado de US$ 220 bi, não reconhece essa fronteira. Já opera no Brasil com subsídios agressivos e compete com a talabat no Oriente Médio. Players chineses com disposição para operar no prejuízo por anos são uma variável que modelos financeiros tradicionais não conseguem capturar. O confronto Uber vs. Meituan será o principal eixo estratégico do setor nos próximos cinco anos.





